fotos por Carlos Felipe Urquizar.
UM PEQUENO EXERCÍCIO SOBRE AS CORES
por Nestor da Costa Jr.
Arista Plástico, formado em Comunicação Social e aluno do curso de pós-graduação em Criação e Desenvolvimento de Produtos para Moda e Design, deste Instituto.
Eu não estava presente. Foi essa a sensação em muitos momentos no fim de semana proposto pelo mestre em comunicação e arquiteto paulista Carlos Perrone, para a sua aula de pós-graduação no Instituto Orbitato. E quando eu digo que não estava presente, não quero simplesmente afirmar que foi preciso alguma espécie de fuga, para suportar as mais de dez horas de aula, o quero dizer é que foi impossível, diante do bombardeio do conteúdo, de imagens e referências, conseguir me estabelecer em classe, e igualmente difícil foi me manter focado nas recomendações do professor: o design. Longe disso, meus pensamentos aguçavam na memória imagens de duas grandes paixões que movem esse jovem artista plástico que vos escreve: as artes plásticas e o cinema e a relação que as duas estabeleceram ao longo dos anos com muitas das teorias esmiuçadas por Perrone naquele fim de semana. Quando citava o grande teórico da cor Josef Albers e suas experimentações em sua série intitulada Homenagem ao Quadrado, no qual pesquisou variações cromáticas em uma composição sem alterações, era impossível não visualizar a fotografia de vermelhos, azuis e verdes das obras do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que abusa de tons saturados e ainda consegue criar uma harmonia sem igual, marca que o torna único, um exemplo que desconsidera as “receitas” de cores. ( figura 01). Reforçando o que Albers escreve em Interação das Cores, Marins Fontes, 2009: “Para utilizar a cor de maneira eficaz, é preciso reconhecer que a cor sempre engana”, e isso me leva a pensar na mesma imagem de Almodóvar iluminado de forma diferente, sem sombras, por exemplo, e o resultado fotográfico que teriam seus filmes.
Figura 01: imagens do filme Todo sobre Mi Madre, 1999 de Pedro Almodóvar e os quadrados de Josef Albers.
E essas sensações se repetem no “capítulo” Metáfora Cromática, onde há a apropriação da cor de um determinado objeto para se criar um novo, ou na apropriação da imagem – já lá no meu pensamento – para se criar uma imagem nova, uma releitura, tal qual Julio Bressane e Luiz Fernando Carvalho, dois cineastas brasileiros contemporâneos, abusaram para compor seus filmes: Amor e Lavoura Arcaica, respectivamente (figura 02). E isso também acontece na pintura onde artistas, hoje consagrados, fizeram homenagens, mais do que releituras, de seus ídolos/pintores, tal como Egon Schiele e sua admiração por Gustav Klimt e tantos outros pintores e tantos outros trabalhos que requerem uma maior perícia do que posso oferecer. (figura 03).
Figura 02: no alto – as obras de Bauthus – três primeiras – e a releitura de Julio Bressane em Filme de Amor, 2006. Abaixo as referências pictóricas e a releitura do filme Lavoura Arcaica, 2001 do cineasta Luiz Fernando Carvalho.
Figura 03: obras de Gustav Klimt e Egon Schiele
DE YVES KLEIN A POP ART
Figura 04: O dadaísta Tristan Tzara, Yves Klein, e os artistas da Pop Art: Roy Lichtenstein e Andy Warhol.
A segunda onda de informações nos trás um panorama artístico da segunda metade do século XX, transformada por experimentações e por questionamentos liderados por Yves Klein e pelos artistas da Pop Art. Enquanto o francês trabalhava na busca do seu azul, que representava o vazio – segundo sua teoria – e dava os primeiros passos para o que mais tarde se tornaria a performance nas artes/arte conceitual, transformando o processo criativo tão ou mais importante que o resultado transformado em obra, o americano Andy Warhol ironizava a vida consumista que representava a sociedade americana na década de 60, sendo um dos principais artistas da Pop Art.
Depois dos anos 60 a arte mudou radicalmente, e a visão que se tinha sobre ela também. Já não existem objetos, materiais ou temas artísticos, tudo pode ser transformado em arte, coisa que nos anos 20 já se esboçou com o Dadaísmo, mas que décadas depois ganharia o mundo através das obras da Pop Art.
Por fim o que fica de uma aula que põem em exercício tais pensamentos não pode ser considerado menos do que uma tradução perfeita do pensar a criação. Na medida que trás à luz questionamentos quanto a resultados pré-concebidos, tanto pelos movimentos artísticos, quanto pelos ditados pela indústria, como as fórmulas de cores e ainda nos desperta da zona de conforto em que os ditos criativos se estabelecem, já nos fazendo duvidar dessas novas teorias apresentadas. Na saída me senti embebido de inspiração e nessa mesma semana em prática experimentei exercícios, pensando a cor antes da obra. Pensando na apropriação metafórica da cor, na composição de um novo painel artístico. Embora o foco das aulas tenha sido design.
é bom, também, ler nestor.
pinta, escreve e flutua sobre os pensamentos mais intuitivos.
gostei, assim como gosto da obra dele.